Na próxima terça-feira (23), a morte de Benício Xavier de Freitas vai completar um mês. A criança, de apenas 6 anos, faleceu depois de sofrer seis paradas cardiorespiratórias seguidas por causa de uma dose de adrenalina que foi aplicada da forma errada no hospital particular Santa Júlia, em Manaus, de acordo com a investigação da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM). Um mês de muitas dúvidas, várias linhas de investigação, luto e pedidos por justiça.
Os pais do menino, Bruno de Freitas e Joyce Xavier, agora se preparam para passar o primeiro natal sem a criança. Além disso, no dia 25 deste mês de dezembro, Benício iria completar sete anos. Agora, a rotina do casal é acompanhar o avanço das investigações e fazer pressão para que erros médicos não façam novas vítimas.
Delegado Marcelo Martins aponta que o caso vai além de um erro isolado e envolve múltiplas condutas profissionais
Benício faleceu em um domingo, depois de dar entrada no hospital com tosse e sintomas de uma laringite. O garoto chegou na unidade particular de saúde pela tarde do dia 22 de novembro, passou pela triagem e foi atendido pela médica Juliana Brasil.
Ela informou para a mãe, que estava no consultório com a criança, que ele “iria fazer adrenalina”. Da consulta, eles foram até a enfermaria para a aplicação do medicamento, quem assumiu o atendimento no local foi a técnica de enfermagem Rayza Bentes. A receita era de adrenalina pura, que deveria ser aplicada três vezes em intervalos de trinta minutos, totalizando nove miligramas.
Uso da adrenalina
A comunidade de pediatria amazonense explicou que o hormônio pode ser usado para aliviar os sintomas de doenças respiratórias de forma rápida e eficaz, mas quando administrado através de inalação, diferentemente do que aconteceu com Benício. Logo depois de receber uma das doses, a criança reclamou de dores no coração para os pais.
Médica responsável pela prescrição da adrenalina; documentos internos indicam reconhecimento de erro na medicação aplicada à criança
O menino foi encaminhado para a sala vermelha e depois para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde foi entubado. Ele teve seis paradas cardiorespiratórias e depois de 14 horas no hospital morreu por overdose de adrenalina, às 2h55 da madrugada do domingo, 23 de novembro.
Começo da investigação
No dia seguinte, a Polícia Civil começou a investigar o caso, sob a coordenação do titular do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), o delegado Marcelo Martins. Juliana Brasil e Rayza Bentes se tornaram os principais alvos das apurações; a técnica de enfermagem disse em depoimento que apenas seguiu o que a prescrição médica dizia, que fez a aplicação sem qualquer suporte da equipe médica.
O delegado disse que durante uma visitação ao Hospital Santa Júlia, para colher informações foi avisado de que uma enfermeira orientou Rayza para não fazer a aplicação da adrenalina na veia, mas através de nebulização.
Médica fica em silêncio
Técnica de enfermagem que aplicou a medicação; afirmou em depoimento que seguiu a prescrição médica e que estava sozinha no procedimento
A médica, Juliana Brasil, não falou com a imprensa, mas documentos internos do hospital foram divulgados e neles ela reconhece que fez a prescrição de forma errada. Além disso, uma conversa dela com o médico Enryko Queiroz, através do Whatsapp, vazou. No diálogo, ela pede ajuda e assume o erro: “Pelo amor de Deus. Eu errei a prescrição. Me ajuda”. O advogado dela, Felipe Braga, disse que a cliente admitiu o erro no calor do momento e argumentou que uma falha no sistema de prescrição das receitas foi o que ocasionou o problema. A defesa, inclusive, mostrou um vídeo com esse suposto erro para a polícia.
“Nenhum médico sai de casa para matar. Hoje, as prescrições são feitas por um sistema automatizado. Quando ela escreve a via de administração, o próprio sistema pode entender que está incorreta e alterá-la automaticamente”, disse o advogado.
Indiciamento
Para o delegado Marcelo Martins, Benício sofreu muito antes de falecer e por isso o indiciamento para Juliana e Rayza é por homicídio com dolo eventual, quando o agente entende que há um risco, mas decide prosseguir com a ação da mesma forma. No caso da médica, ainda há a possibilidade de responder por outro crime, o de falsidade ideológica. Na assinatura que ela pôs na prescrição médica, o carimbo informa que ela é pediatra, mas na realidade é clínica geral, não possui a especialidade para o atendimento de crianças.
A Polícia Civil pediu, por duas vezes, as prisões preventivas delas, consideradas até o momento como as principais investigadas. O Tribunal de Justiça do Amazonas negou as solicitações, na mais recente, assinada pelo juiz titular da 1ª Vara do Tribunal do Juri da Comarca de Manaus, Fábio de Souza. A justificativa é de que as prisões só devem acontecer em último caso, já que ambas as investigadas não apresentam históricos para reincidência.
Em contrapartida, o magistrado aplicou medidas cautelares para elas. Durante 12 meses ficam com os registros profissionais suspensos, não podendo atuar em nenhuma unidade de saúde no país. Elas também precisam comparecer em juízo mensalmente para informar as atividades, não podem deixar a capital sem autorização expressa e nem entrar em contato com os familiares da criança.
Os pais, Bruno e Joyce, se manifestaram através de uma nota. No comunicado, eles afirmam que respeitam o que foi definido pela Justiça do Amazonas e classificam as medidas cautelares como necessárias. Por fim, dizem que confiam no trabalho desempenhado pela Polícia Civil e esperam que todos os envolvidos no caso sejam punidos de acordo com o que diz a lei.
“A família de Benício reafirma que seu compromisso é com a verdade dos fatos, com a proteção da saúde pública e com o fortalecimento da confiança da sociedade nas instituições médicas, de enfermagem e de justiça. A família confia que as investigações seguirão seu curso regular nas esferas penal, cível e ético-profissional, com a apuração rigorosa das condutas, o respeito ao devido processo legal e a responsabilização de todos os envolvidos, na medida de suas atribuições”, diz um trecho da nota.
Erros partilhados
Na última quarta-feira (17), o delegado Marcelo Martins confirmou que a investigação chegou a um patamar onde é possível dizer que os erros não foram apenas de Juliana Brasil e Rayza Bentes. O titular do 24º DIP afirmou que outros dois médicos, Luiz Felipe Sordi e Alexandra Procópio, responsáveis pelos atendimentos na UTI, não adotaram os procedimentos considerados padrão neste tipo de caso.
Os profissionais de saúde foram ouvidos pela PC-AM no dia 27 de novembro, mas podem ser convocados para depor novamente.
Esquema mostra a cadeia de eventos que culminaram com a morte da criança Benício de Freitas
Em entrevista para jornalistas, Martins chegou a dizer que Sordi deveria ter entubado Benício de imediato, solicitado um parecer médico de um pediatra infantil e um anestesista, nada disso foi feito. Quanto a Procópio, afirmou que ela deveria ter feito um procedimento para retirar a alimentação do estômago de Benício antes de entubá-lo.
“Surgiu a informação de que havia uma medicação que poderia ter sido administrada no Benício para diminuir os efeitos da adrenalina. Quem poderia dar essa informação? O especialista em anestesia e cardiopediatria que estivesse comparecido no local, o que não foi adotado pelo doutor Sordi. A medicação {prescrita pela Alexandra} que foi feita, foi imprópria, ela deveria ter feito uma medicação para induzir a sedação dele”, disse o delegado.
Ainda na quarta, a 1ª Vara do Tribunal do Juri da Comarca de Manaus autorizou a Polícia Civil a fazer uma perícia no Santa Júlia, que ocorreu ao longo da tarde no mesmo dia. O mandado é contra a unidade de saúde e a empresa que administra o sistema computacional que é usado hospital. As informações que foram coletadas serão reunidas junto aos demais dados presentes no inquérito, bem como a perícia do Instituto Médico Legal (IML), para que haja a apresentação final da PC-AM.
O fundador do hospital particular, Édson Sarkis, também foi ouvido pelas autoridades policiais. Ele afirmou categoricamente que a unidade segue todos os protocolos de controle e qualidade, inclusive que possui o terceiro nível da Certificação ONA (Organização Nacional de Acreditação), um processo de avaliação da qualidade e segurança em serviços de saúde. O patamar citado é dado apenas para estabelecimentos que atendem a 90% dos padrões de qualidade/segurança, 80% de gestão integrada e 70% dos de excelência em gestão, incluindo inovação e tecnologia.
“O hospital tem protocolo de segurança, tem dupla checagem. Nessa ocasião, no pronto-socorro, tinha uma enfermeira que faz o protocolo de segurança. Ela não foi acionada, mas existe. Além disso, tem uma farmacêutica na central”, comentou.
Quando questionado sobre qual a mensagem queria dizer para a família de Benício, Sarkis disse que sofre junto com eles; que tem um neto e não sabe o que fazer. Finalizou com a frase: “Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo diferente, sei do sofrimento deles e compactuo com o sofrimento deles.”













