EXCLUSIVO– Planilhas obtidas por este jornalista mostram custos de materiais de construção inflados e erros matemáticos grosseiros que tentam justificar a exigência de R$ 400 mil das agremiações Escama Fina e Escama Grossa.
Por [ROGERIO GAROTINHO/Portal R5]
Canumã, Borba (AM) Uma investigação exclusiva baseada em documentos obtidos por esta reportagem lança luz sobre o verdadeiro motivo do cancelamento do duelo entre as agremiações Escama Fina e Escama Grossa no 27º Festival do Jaraqui, no distrito de Canumã. As planilhas orçamentárias apresentadas pelos dirigentes das associações culturais à Prefeitura de Borba revelam não apenas exigências financeiras abusivas, mas também graves indícios de superfaturamento de materiais e erros de cálculo que tentam, sem sucesso, justificar um repasse total de R$ 400 mil.
O impasse, que culminou no cancelamento das apresentações dos peixes, começou quando os presidentes das agremiações rejeitaram uma oferta de repasse de R$ 100 mil feita pela gestão municipal — valor este já superior aos praticados em anos anteriores. Em uma clara tentativa de pressão pública, os dirigentes gravaram um vídeo alegando falta de apoio. Contudo, os documentos que sustentam o pedido de R$ 200 mil por agremiação revelam uma realidade bem diferente.
A recusa do valor recorde oferecido e a insistência em cifras fora da realidade orçamentária do município foram interpretadas pela administração como um boicote à retomada do festival, que não acontecia há seis anos.
Esta reportagem teve acesso exclusivo às planilhas que compõem o “Plano de Trabalho 2026” apresentado pelas agremiações. A análise detalhada dos itens de “Materiais para Alegorias” (Imagem 83) expõe a fragilidade da cobrança.
O erro mais alarmante está na soma final da planilha de materiais. A lista de itens totaliza, na verdade, R$ 96.200. No entanto, a agremiação escreveu à mão, no rodapé, o valor de “R$ 200 mil”, uma discrepância matemática de mais de R$ 103 mil sem qualquer justificativa ou item correspondente.
Além do erro de soma, os preços unitários de materiais básicos de construção civil e artesanato apresentam valores flagrantemente superiores aos de mercado, mesmo considerando a logística para a região:


Vergalhão 4.2 (200 barras): Cotado a R$ 10.000 (R$ 50,00 por barra de 6m). O preço de mercado gira em torno de R$ 15,00 a R$ 20,00, um indício de superfaturamento de mais de 150%.
Tubo quadrado 3” (25 unidades): Cotado a R$ 28.000 (R$ 1.120,00 por unidade). O valor de mercado para este material é infinitamente menor, não passando de R$ 150,00 a R$ 200,00 por barra.
Arame recozido: O item aparece duas vezes na mesma lista (10kg por R$ 700 e 15kg por R$ 1.000). O quilo está saindo a quase R$ 70,00, quando o preço real é inferior a R$ 20,00.
Isopor (4 blocos): Cotado a R$ 4.000 (R$ 1.000,00 por bloco).
Metalon 50×30 (30 unidades): Cotado a R$ 11.500 (R$ 383,33 por unidade).
Esses números sugerem que as planilhas foram infladas artificialmente para atingir a meta financeira desejada pelos dirigentes, sem condizer com os custos reais de produção de um festival no distrito.
Custos Administrativos e Rejeição Popular
A segunda planilha obtida (Imagem 84) detalha os custos com pessoal e itens de vestuário, somando R$ 113.000. Somados aos R$ 96.200 reais reais de materiais, o custo total “real” apresentado pela agremiação seria de R$ 209.200. No entanto, a exigência final continuou sendo de R$ 200.000 apenas para materiais, sem clareza sobre como os outros custos seriam cobertos, evidenciando a desorganização e a falta de transparência no pedido.
A exigência de R$ 400 mil no total gerou revolta entre os moradores de Canumã. Relatos obtidos pela reportagem indicam que a população considera os valores “fora da realidade” e que o montante de R$ 100 mil rejeitado pelos presidentes seria suficiente para realizar a festa com dignidade.
Fala do Secretário: Compromisso com a Legalidade
Em entrevista exclusiva, o Secretário Municipal de Cultura e Turismo, Cláudio Alfon, lamentou a postura dos dirigentes e reafirmou que a prefeitura não compactuará com a má gestão do dinheiro público.
“Nosso compromisso é com a transparência e a responsabilidade fiscal. Nós oferecemos um valor histórico de R$ 100 mil, maior do que qualquer outra gestão já destinou a este festival. Infelizmente, fomos surpreendidos com planilhas que apresentam valores abusivos, preços de materiais que não condizem com a realidade do mercado e erros graves de soma que tentam justificar uma exigência de R$ 400 mil”, afirmou o secretário.
Alfon foi categórico ao explicar o redirecionamento dos recursos. “A prefeitura não pode, por lei e por princípio, ceder a esse tipo de pressão e aceitar orçamentos superfaturados. O dinheiro público é sagrado. Como os presidentes optaram por boicotar o duelo ao invés de aceitar um investimento justo e transparente, o prefeito Toco Santana determinou que os R$ 100 mil sejam investidos em obras que a população de Canumã tanto precisa”.
O Dinheiro do Povo Fica para o Povo
Com o cancelamento do duelo devido à intransigência das agremiações, a Prefeitura de Borba anunciou que os R$ 100 mil serão destinados a obras imediatas no distrito:
- Reforma Total do Peixódromo: Fim do abandono de mais de 8 anos do espaço.
- Investimentos na Saúde: Compra de insumos e melhoria do atendimento local.
- Construção da Escadaria de Canumã: Obra fundamental para a infraestrutura e acesso ao porto.
A administração municipal garantiu que o 27º Festival do Jaraqui está mantido para o dia 23 de maio. A programação cultural contará com a grande atração nacional Kaelzinho Ferraz, assegurando que o boicote das agremiações não prejudique o turismo e a economia do distrito.
A gestão municipal reafirma que seguirá trabalhando dentro da legalidade, transparência e responsabilidade com os recursos públicos, priorizando sempre o bem-estar e o desenvolvimento de Canumã e de toda Borba.











